Há um ano eu tinha dois meses de gestação, a incerteza antes
das doze semanas e uma vontade imensa de conhecer o sexo e o rosto do meu bebê.
Em setembro do ano passado, o dia vinte e quatro parecia o
mais distante do calendário. Às vezes eu tinha a impressão de que alguns dias
até se repetiam, só para o dia do Caio demorar mais a chegar e para aumentar a
minha ansiedade por tê-lo nos braços.
No dia vinte e cinco de setembro eu olhava para um futuro
que parecia ser uma eternidade. Teria bastante tempo para ficar só “chocando” o
meu filhote. Só voltaria às minhas atividades cotidianas quando ele já fosse
relativamente grandinho.
Nem parece que já se passaram cinco meses.
Na próxima quinta-feira a minha vida recomeça. Não que ela
tenha parado nesse tempo em que fiquei em casa com o Caio: ao contrário, ela
girou 180° e se transformou em algo que eu jamais imaginaria antes de ele
nascer. Aprendi muita coisa, descobri muitos lados meus que eu sequer sabia que
existiam, desenvolvi uma grande intuição e mais um monte de subterfúgios que
são privilégios só de mães. Aliás, aprendi a amar mais a minha própria mãe, se
é que isso ainda era possível.
Aprendi. Esse é o grande verbo, no pretérito perfeito, que
regeu a minha licença maternidade. Aprendi que posso voltar a ser criança
enquanto meu filho for criança também. Já sei todas, TODAS as músicas das TRÊS edições
da Galinha Pintadinha. Já desenvolvi diversas táticas de fazê-lo sorrir, rir
até vomitar e parar de chorar. A cada nova necessidade, descubro mais uma.
Aprendi que, ao me tornar mãe, abri mão de um monte de
coisas que antes me eram quase vitais. Nunca mais acordei depois das 10h (tá...
uma ou duas vezes consegui enganar o danadinho e fazê-lo dormir até meio dia),
não sei mais o que é dormir seis horas direto (novamente, uma ou duas vezes
acordei percebendo que o Caio “pulou” o mamá da madrugada e dormiu diretão) e
muito menos o que é “morrer para o mundo” numa noite de sono. E, apesar de
ainda não estar passando por isso, já iniciei a preparação psicológica para os
dias que virão: acordar antes das seis da manhã, organizar tudo e, então, pegar
o meu filho, dar mamá e levá-lo, dormindo ou acordado, à casa da vovó, antes
das sete da manhã. Depois, encarar um trânsito infernal até o trabalho e, à
tardinha, pegar esse trânsito de volta, ir para a academia e, finalmente,
buscar o meu filhote para irmos para casa. Fora o provável cansaço que isso vai
me proporcionar, o tempo com ele será curto. Portanto, o restinho de dia que eu
tiver com ele será muito bem aproveitado, não importa o quão exausta eu esteja.
Aprendi a ver as pessoas por outros ângulos – inclusive a
mim mesma. A minha sogra não é mais só a mãe do Eduardo e uma pessoa a quem eu
quero muito bem: é um anjo que, além de se derreter pelo meu filho, faz tudo,
até sacrifícios pessoais, para que o bem estar dele seja garantido. A minha mãe
não é só a minha mãe e nem só a avó materna do Caio: é minha grande fonte de
consulta. É o meu Google! Pergunto, pesquiso, peço ideias, exemplos... depois
do Caio, nossa relação mudou bastante. Talvez não pra ela... mas eu a vejo
diferente. Maior. Melhor. Mais necessária do que nunca e tão carinhosa como
sempre. O meu pai, então, não é mais só o meu pai... é um vovô bem mais
afetuoso do que eu poderia sequer sonhar! É a grande surpresa dessa minha nova
fase, sentir o amor e o carinho que ele tem pelo meu filho e reconhecer que,
para o Caio, ele sabe demonstrar melhor do que fazia comigo. E isso não me
incomoda: me emociona! Ambos vão se beneficiar desse amor e dessa interação.
Aprendi a amar o meu marido de outras formas, além do que eu
já sentia. Descobrir nele um pai com P maiúsculo, dedicado, presente, carinhoso
e brincalhão não foi exatamente uma surpresa, pois eu já conhecia a dedicação e
o amor incondicional dele por mim. Dividir isso com o Caio faz com que o meu
amor seja maior, diferente. Eu amo o homem, o marido, o pai, a criança. É mais
do que eu poderia pedir, mais do que eu imaginei. É perfeito.
Aprendi que a paciência que eu já tinha antes não seria o
suficiente. Então, aumentei-a. Que eu nunca mais seria a pessoa medrosa de
antes: hoje, sou muito mais, mas sei me posicionar e até virar leoa, mesmo, se
for pelo meu Caio. Que eu precisaria desempenhar vários papéis que,
concomitantes, sempre me pareceram demais: mãe, dona de casa, esposa,
coordenadora de um setor e mulher. Que eu precisaria ser forte para várias
coisas, desde cheiro de cocô e queijinho até um choro desesperado e
inexplicável por mais de meia hora. Que ser frágil não é coisa de mãe.
Aprendi a amar. Eu achei que soubesse. Não era nem metade. É
um amor diferente. Amor que a gente só sente por mãe, e, ainda assim, é maior.
Faz com que a gente queira sentir a dor que o filho sente, faz a gente chorar
ao ver a dor de outras mães, enlouquecer de raiva ao ver que tem mãe que não
consegue ser mãe. Faz a gente sorrir e achar graça quando o filho bebê descobre
que a gente tem cabelo e PUXA com toda a força. Faz a gente mudar qualquer
humor, perder qualquer rebolado, esquecer qualquer malcriação com um simples
sorriso desdentado. Muda tudo. Transforma aquele serzinho no seu centro da
Terra. Até o momento em que ele descobre o mundo. Mas isso já é demais. Passaram-se
só cinco meses. Falta uma eternidade... ou não?
=)




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